Search
  • Amanda Martins

Ultramar


Murilo. Coimbra, Portugal, 1694.

– Querido, acorde! Já são seis da manhã – ouviu Murilo. A voz vinha de muito longe. Talvez fosse São José, padroeiro dos pedreiros, mas não fazia sentido. Abriu os olhos e aos poucos um rosto redondo surgiu da penumbra. Era Maria da Consolação. Não podia haver nome melhor – pensou. Mascou a boca pastosa e ao mover o braço fez uma careta. A dor continuava ali. Devo estar ainda mais feio agora.

– O sino já tocou?

– Duas vezes – disse ela, acariciando os cabelos do marido. – Deixe-me ver?

– Está muito frio para que eu fique nu – Murilo se virou, mas sabia que não tinha escolha. Despiu-se da velha camisola e sentiu o frio subir pela pele. Talvez tivesse febre.

– Levante o braço – ordenou Consolação. Ele obedeceu, baixando o rosto para que ela não o visse chorar.

Há três dias brotara um enorme furúnculo sob a axila de Murilo e aquilo doía como o diabo, mas o desânimo era um luxo ao qual não podia ceder. Não era fácil carregar pedras e rebocar paredes roçando aquela pústula. Podia ser na perna ou na barriga pensou, – mas não: tinha que ser ali.

– Não seria melhor chamar o Rodrigues?

Murilo se sentou na cama, sem ânimo para responder. Não podia pagar um médico, não naquele momento. Se bem que seu irmão Crispim poderia lhe emprestar algum dinheiro. Se ao menos ele não fosse tão...

– Podemos fazer uma compressa de água quente – Consolação propôs. – Drenar esse pus.

– Drenar? – Ele se encolheu. Odiava quando reagia assim, como cão medroso. – Não convém interceder. – Retesou a espinha. – Deixe a ferida estourar por si só. Deus cuida – mostrou a ela um sorriso abatido e começou a vestir a camisola. Na pressa confundiu a manga, o antebraço ficou preso em outro buraco e assim seu dia começou. Quando terminou Consolação já estava diante da porta.

– Vamos remendar essa blusa quando voltares do trabalho – ela se virou. – Ou após o jantar na casa de vosso irmão Crispim – tamborilou os dedos pelo portal e sumiu pela escada.

Murilo contorceu a boca numa expressão amarga. O jantar. Havia se esquecido. Levantou-se e abriu a janela. Vestia suas melhores lãs, uma ruína entre o branco e o bege, cores tão apáticas quanto ele. Nem de longe era suficiente. Fazia frio ali em cima, no segundo andar do casebre. Fitou a escuridão cinzenta do dia que nascia, a neve densa caindo lá fora, um péssimo sinal para suas velhas botas de couro. A sola desgastada se tornara fina demais para o inverno e suas pisadas tortas abriram um buraco na ponta do dedão. As meias estariam molhadas antes mesmo que chegasse à obra na tanoaria – previu –, então passaria o resto do dia sem sentir os pés. Olhou para os lados, nenhum movimento na rua. Abriu as calças e viu seu mijo atravessar a janela.

Urinar contemplando o fluxo sereno do rio Mondego era um dos pequenos prazeres que Murilo um dia teve quando habitava a casa do pai, um belo sobrado na cidadela de Coimbra, em área elevada, detrás do Portal da Almedina. Certa vez a beleza do rio o absorvera a tal ponto que se esquecera de olhar para baixo e quase atingira uma sentinela da Guarda Acadêmica. Mas isso fora há muito tempo, e nunca no inverno, quando a neblina cobria a parte superior da cidade. Agora, morando na Cidade Baixa, seus olhos tinham de se contentar com as casas descascadas do beco do Carrasco. Ainda assim era prazeroso ver seu mijo quente derretendo a neve do lado de fora.

Estava escuro, mas convinha economizar velas. Vestiu as calças com cuidado, mas todo esforço parecia em vão. Como uma ferida tão pequena podia doer tanto? Buscou as botas sob a cama e um rato disparou em direção às escadas. Murilo o seguiu para encontrar a esposa e o filho na cozinha, sentados à mesinha rústica situada ao lado do fogão, como era conveniente.

– O açúcar mascavado acabou – informou-lhe Alberto antes mesmo de lhe pedir a bênção. Murilo deu um gole no chá que Consolação lhe ofereceu e engoliu as palavras como se fossem veneno. Devia sovar o filho com um soco na boca para lhe ensinar respeito, mas não queria magoar a esposa. Além disso, a época de lhe bater passara. O menino tinha agora doze anos e sua voz engrossava a cada dia. Em breve se tornaria um rapaz alto, muito maior que Murilo, então o que ele iria fazer?

– Hoje é sexta feira – disse. Receberia seu salário, então passaria pela Praça do Comércio. – Além de açúcar, há algo mais a comprar? – Perguntou. Talvez se arrependesse disso.

– A lenha está no fim – lembrou Consolação.

– Sabia que na casa do tio Crispim só se compra açúcar branco? – Alberto misturava o chá de modo antipático.

Sim, Murilo sabia, mas não teve vontade de responder.

– Todos sabemos que seu tio Crispim é um homem muito bem-sucedido – Consolação pôs o pano de prato de lado e tomou as mãos do filho nas suas. – Não vais mesmo dizer o que houve com seu rosto?

Murilo parou, surpreso, e virou-se para olhar o garoto. Uma auréola arroxeada orbitava sua vista direita e era tão grande que nem os cabelos podiam esconder.

– Já disse, não é nada – Alberto retirou a mão e baixou a cabeça. – Tio Crispim teve que me corrigir ontem. Eu mereci! Coloquei o nariz onde não devia! – Disse com súbita precipitação.

De repente, Murilo se sentiu culpado.

– O que fizestes? – Consolação cruzou os braços sobre a mesa.

– Tio Crispim tem uma sala na oficina em que nós, aprendizes, não podemos entrar. Bati, mas ele não atendeu. Ousei abrir a porta e ele ficou bravo, com toda razão.

Murilo não se surpreendeu. Era dever de todo mestre de ofício educar e punir os aprendizes, e ele não tinha dúvidas de que seu irmão Crispim era bom em punir.

– Meu pai já me deu muitos tapões na orelha quando tentei entrar na salinha secreta – ofereceu a Alberto um sorriso amigável.

Uma sugestão de repugnância brincou nos lábios do garoto.

– Eu levei um só e aprendi a lição – disse ele. – Eis a diferença entre nós.

Pois deveria levar mais – Murilo quis dizer, mas se conteve. Não gostava daquele tom. A cada dia Alberto se parecia mais com Crispim, prepotente e arrogante. A semelhança era até mesmo física. O garoto se tornaria um rapaz alto e magro, podia prever. Deixara os cabelos crescerem até os ombros para então atá-los com uma fita, como fazia o tio. Crispim investira desde cedo nessa idolatria – Murilo pensou. Se trazia ao menino um cavalinho de pano, Crispim o presenteava com um cavalo de madeira. Se lhe trazia um doce o tio vinha com um pacote de pastéis de Santa Clara.

– Logo vais se tornar um oficial, meu filho – Consolação acariciou as costas do filho. – Isso é bom. Eu e seu pai estamos velhos e cansados.

– Faltam só cinco anos – disse Alberto em tom de desafio. – Tio Crispim vai me dispensar do tempo de oficial. O juiz da Casa dos Vinte e Quatro vai me examinar direto. Então serei um mestre ourives e terei minha própria oficina, assim como meu avô e seu pai antes dele. Um salário de 300 réis por semana – voltou a sorrir, agora com desdém, mirando de cima a calvície do pai.

As palavras ressoavam na cabeça de Murilo como fel curtido pelo desgosto ou – por que não admitir? – pelo despeito.

– Certamente, filho – disse, com o resto de sua dignidade. – Seu avô, que está no céu, terá muito orgulho de ti. Agora, tenho que trabalhar – levantou-se e se dirigiu à saída tão rápido que quase destroncou o pé. “Sabia que tio Crispim vai comprar uma carruagem?” – Ainda ouviu o filho dizer enquanto cerrava a porta detrás de si.

O vento soprava frio naquela manhã cinzenta, fazendo Murilo se aninhar dentro das lãs. De súbito sentiu um líquido frio adentrar o buraco da bota e se deu conta de que pisara no próprio mijo. Cerrou os dentes. Não era a primeira vez, refletiu, vestindo o casaco roto pelo caminho.

Quando a presença de Alberto havia se tornado tão desagradável? Serei um mestre ourives e terei minha própria oficina como meu avô e seu pai antes dele, dissera. Em alguns anos faria o exame, que era caro. As ferramentas eram exorbitantes. Talvez Crispim pagasse os custos. Ele devia pagar. O irmão lhe devia algo. Ele lhe tomara tudo! Que Deus o perdoasse, mas podia compreender Caim.

Havia ainda Consolação. Lembrava de vê-la jovem, correndo de um lado par ao outro com as mãos recheadas de cavacas com frutas, os olhos brilhantes de vida e tão castanhos que mais pareciam bolotas de carvalho. Uma bela tricana – diziam os estudantes da Universidade de Coimbra à época. Agora tinha cabelos grisalhos apanhados sobre a nuca por um pente de madeira e calçava sapatos de segunda mão que ela mesmo remendava.

Por que diabos Consolação não havia se casado com um estudante? Eram hoje bacharéis, juízes, desembargadores, já Murilo carregava baldes de cimento. Decerto estava arrependida. Ele não a merecia. Ele não merecia nada. Por que Deus tinha lhe dado a vida? Queria morrer. Mesmo morrer é dispendioso, pegou-se pensando. O caixão, as missas, as dívidas. Consolação encontraria outro homem, um homem melhor que ele. Um herói que a protegeria da violência do mundo, que lhe daria uma casa melhor e açúcar branco. Ou, quem sabe, um valentão agressivo, como o irmão de Murilo, que lhe daria safanões sempre que abrisse a boca. Não! Era preciso viver, era preciso suportar mais um dia.

A neve se tornara impiedosa e o vento lhe cortava a face. O chão era como um tapete branco, escorregadio e sujo. Cruzou a Rua dos Latoeiros e chegou à Praça do Mercado onde a plebe já se movimentava. Um cão latia de modo nervoso, então outros cachorros se aproximavam rosnando e latindo também. O animal tentava defender o dono de dois guardas que o forçavam a sair dos pés do pelourinho. Até os mendigos têm quem os ame, pensou Murilo, mas isso não acalmou seu coração. O som crescente dos martelos o informou que a Rua dos Tanoeiros estava próxima. Alguns passos depois e reconhecia Foca, Fininho, Camelo e Boca de Peixe em frente à tanoaria Nossa Senhora da Oliveira. Eram seus companheiros de ofício.

– Chegou a baleia branca! – Berrou Fininho, um aprendiz de pedreiro de oito anos de idade.

Boca de Peixe jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.

– Ihhh! Essa eu não deixava, Baleia! Um rapazola zombando de ti?

Murilo não tinha ânimo para responder.

– Tem algum tabaco? – Perguntou.

– De novo? – Camelo encolheu os ombros, irritado, deixando ainda mais saliente a precoce corcunda legada pelo trabalho pesado.

Foca jogou um estojo de couro na direção de Murilo.

– Só não tenho palha para enrolar – disse.

– Toma aqui a palha, Baleia – Boca de Peixe estendeu a mão.

– Obrigado – Murilo balbuciou. No interior do estojo encontrou um dedo de tabaco e um canivete velho, mas muito bem amolado. Cortou o fumo em tiras e logo enchia os pulmões com um delicioso trago. Seus intestinos responderam de imediato. Era seu segundo pequeno prazer do dia. – E mestre Davi? – Perguntou.

– Chegará mais tarde para supervisionar a reforma do telhado – Foca não parecia convencido. – Sim, ele dorme e nós trabalhamos.

Boca de Peixe cuspiu no chão. Era um homem alto de rosto descarnado, nariz adunco, e sorriso cruel.

– Não posso julgá-lo por isso – disse. – Faria o mesmo se pudesse. E os tanoeiros? Vão mesmo continuar lá dentro?

– Eles tem uma grande encomenda de barris para embarcar no patacho da naveta – Foca pegou a enxada.

Murilo o olhou horrorizado.

– Lá dentro? Como? É perigoso! E se cair uma telha...

Boca de Peixe lhe deu um tapa nas costas tão forte que seu cigarro voou.

– Sabe por que você nunca poderia ser tanoeiro, Baleia? – Deu uma risada. – Porque um tonel não pode fabricar outro! Um tonel, entendeu? – Voltou a sacudir-se de riso, girando as mãos em torno da cintura. Fininho esboçou uma gargalhada, mas seus lábios pararam, deixando-o com uma expressão estúpida quando Foca advertiu:

– Deixe o homem em paz – chutou um balde em direção a eles. – O cimento não se fará sozinho.

Murilo o amou naquele momento. Era um homem perigoso, como o apelido atestava. Focas não têm orelhas e Foca era isso, um desorelhado, alguém que havia sido punido com a perda destes membros pela justiça de El Rei. Decerto cometera algum delito grave, mas quem ousava perguntar?

Dirigiram-se para o chafariz onde três homens negros aguardavam sua vez, trazendo nas costas grandes odres de barro. Boca de Peixe e Murilo furaram a fila, como costumavam fazer. Em retorno receberam olhares fundos e frios, mas Murilo não se importava. Era apenas um oficial mecânico, um pedreiro, é verdade. Ainda assim era um legítimo português, branco, cristão velho, livre. Os negros que se danassem. Eles nem deveriam estar ali.

– Por que os nobres insistem em trazer ao Reino essa escumalha? – Boca de Peixe fez questão de elevar o tom da voz para que todos ouvissem.

Murilo hesitou.

– Para tomar os empregos dos servos domésticos, penso eu.

Sua antipatia por aqueles homens tinha razão de ser. Tentaram trabalhar como auxiliares de ofícios, chegando mesmo a ser aceitos como aprendizes. Quando a baixa de salários bateu às portas a Casa dos Vinte e Quatro reagiu, proibindo por regulamento esta integração, assim Murilo foi salvo de ser confundido com o que considerava uma ralé no dia a dia de trabalho. Só havia um grupo que ele odiava mais do que os negros: os estudantes universitários. O desprezo, sem dúvida, era mútuo. A cada ano nova turba de jovens mimados desembarcava em Coimbra. Para sorte dos homens da terra, raramente andavam pela Cidade Baixa. Assim como clérigos, aristocratas e professores, encerravam-se nos limites da muralha da Cidade Alta murmurando frases em latim e ostentando “capa e batina” – traje acadêmico que os distinguia dos meros mortais.

– Está esperando o quê para pegar as caçambas, Baleia? – a voz de Boca de Peixe reverberou pela praça. Murilo mirou os baldes. Eram pesados, feitos de madeira. Cada qual estava carregado com vinte litros d’água. Boca de peixe os pendurou nas extremidades de um pau cheio de farpas e os alçou como se fossem travesseiros de palha. Do outro lado, os movimentos de Murilo eram lentos e dificultosos. A inflamação na axila tornava seu corpo cansado, doloroso e febril, mas não podia reclamar. Não concederia a Boca de Peixe o prazer de rir dele. A mulherzinha está chorando, diria com uma gargalhada estridente. Mas como é difícil controlar o corpo, os olhos de Murilo ardiam, por fim, marejavam como se cortasse uma cebola. A pústula latejava como pontadas de agulha, mas conseguiu disfarçar. Homens não choram.

Escolhendo caminho por entre as fezes deixadas pelos cães, pelos cavalos e pelas pessoas, os pedreiros começaram o caminho de volta. As botas de Murilo soltavam espumas d’água a cada passo, até que pararam de súbito. Uma rica carruagem vinha a trote, cercada por cinco ou seis cavaleiros fidalgos.

– O Conde de Miranda do Corvo! – Alguém gritou. De longe, Murilo vislumbrou o brasão vermelho-sangue e os escudetes azuis entalhados à portinhola da diligência. Odiava quando isso acontecia. Colocou os baldes no chão e retirou o gorro para prestar homenagem como mandava a honra. Quando a diligência passou o viajante sequer baixou a cortina para receber os cumprimentos, mas o Estribeiro Menor, empoleirado na espaldeira, retribuiu a cortesia com um leve toque no chapéu tricórnio.

Sabia que tio Crispim vai comprar uma carruagem? – A frase voltou à mente de Murilo como um fantasma.

– Se ao menos fossem só as mulheres, não é? – Boca de Peixe alçou os baldes sobre os ombros com facilidade, embora não parecesse feliz com a tarefa.

– Anh? O quê? – Murilo não compreendeu de imediato.

– As fêmeas, e não os machos. Ô Rolha de Poço, você é lento, hein? – Boca de Peixe lhe deu um tapão na orelha. A boca de Murilo se apertou em ira, mas ele nada disse. – Estou falando que se ao menos nossa querida nobreza trouxesse apenas as mulheres da África para cá não me importaria. Experimentei uma na zona norte do porto. Foram os cinco réis mais bem gastos da minha vida! – Jogou a cabeça pra trás e soltou uma risada, mostrando-lhe os dentes podres.

– Com certeza! Também me meto ali quando sobram alguns cobres! – Disse Murilo com uma voz ressonante para compensar o rosto corado pela timidez. A verdade é que jamais sobrava dinheiro e, mesmo que sobrasse, considerava a prostituição degradante. Sentia vergonha de ficar nu, revelando seu corpo desproporcional. Tais mulheres comparavam os clientes e riam entre si, todos sabiam. E havia Consolação, que não merecia isso. Mesmo assim sempre ria quando lhe contavam sobre essas aventuras. Era preciso fingir ter algo em comum com os homens com quem trabalhava.

Por fim, chegaram à tanoaria. Água, barro, enxadas, mãos trêmulas sob as luvas e o furúnculo continuava ali, alfinetando, pulsando, tirando-lhe o juízo. O barro já começava a ficar pastoso e o cheiro da terra o deixou pensativo.

– Os Mestres Davi dos Santos estão chegando – Murilo ouviu alguém dizer. Era Boca de Peixe. Sua voz podia ser comum, mas o mau hálito era inconfundível. Fitou o horizonte e viu o patrão, um homem baixo e nervoso de sessenta anos de idade que caminhava com a ajuda de uma bengala. O filho vinha a seu lado, magro e duro como um galho.

– Bom dia a todos – disse Davi Pai sob a barba branca e sedosa. Murilo reparou que seus olhos azuis ficavam mais enevoados a cada dia.

– O barro e o andaime estão no ponto – informou Boca de Peixe. – Sugiro que eu e Camelo subamos no telhado. Foca e Baleia ficam embaixo, alçando o barro e os ladrilhos.

Foca não comprou a ideia.

– Tenho oito anos de experiência em assentar as telhas. Por que diabos eu deveria ficar embaixo?

– Porque tens os braços fortes! – Boca de Peixe ostentou um sorriso malicioso. – E o Baleia... POR MOTIVOS ÓBVIOS! – Girou os braços em volta da barriga e soltou uma gargalhada tão alta que um grupo de pombos levantou vôo e os cachorros voltaram a latir.

– É justo! – Um sorriso insolente tremulou no rosto de Davi Filho. – Afinal, aqui estamos para consertar o telhado, não para destruir o que restou dele! – Deu uma risada. Boca de Peixe, Fininho e Camelo se juntaram a ele. Os tanoeiros correram para a porta com olhos curiosos, então os risos se espalharam por toda a praça e por fim até mesmo Davi Pai se deixou levar. Essa foi a risada que Murilo mais sentiu. Entregara vinte anos de sua vida nas mãos do velho e isso era o que recebia em paga. Sua raiva era tanta que poderia esmagar o homem como uma formiga, depois teve vontade de sumir, mas apenas um sorriso lento e frio, olhando para os lados como se não fosse ele próprio o motivo da pilhéria. Quem sabe sua indiferença os desencorajasse?

Foi Foca quem quebrou o constrangimento ao recomeçar o trabalho, empilhando as telhas nos baldes de lata já bastante amassados pelo uso. Murilo abraçou a oportunidade e o seguiu. Impelidos pela atitude, os outros a subiram nos andaimes.

– Quantos ladrilhos couberam? – Perguntou Davi Filho, talvez para irritá-los. Os baldes e as malditas telhas eram sempre os mesmos. Um mestre sabia muito bem qual a capacidade.

– Quarenta e dois, senhor.

– Alçar baldes! – Ordenou Davi Pai, suspendendo o cajado com a solenidade do corneteiro que anuncia chegada do Rei. Àquele sinal, Murilo deu o primeiro puxão na corda. A carga lhe parecia pesada como o diabo, mesmo com auxílio da roldana. As pernas tremiam e ele só sabia que ainda tinha pés porque eles insistiam em escorregar sobre o gelo.

– Alçar baldes! – repetiu Davi Pai. O velho tinha essa mania de querer que os oficiais trabalhassem de forma ritmada. A cada comando deviam atuar em sincronia, dando três arrancos na corda. Murilo, que odiava isso, virou os olhos de impaciência, mas também para esconder a dor. A cada arranco o braço roçava, espremendo a região do furúnculo. Ali não havia mais pele, somente uma película fina. Quando Davi Pai gritou outra vez, suas vistas se embaralharam. Piscou os olhos e avistou o balde quase no topo. Camelo tentava agarrá-lo com a desenvoltura que a corcunda permitia, mas Murilo não tinha mais forças. Se desse uns passos para trás poderia arrastar a corda sem mover tanto o braço, mas o chão escorregava sob seus pés. De repente pisou num objeto e deslizou, então suas vistas escureceram. Acordou um minuto depois, deitado na neve, com cinco rostos olhando para si.

– Quem diabos limpa a bunda com sabugo de milho e o joga na rua? – Ouviu Boca de Peixe perguntar.

O mesmo tipo de gente que mija pela janela – Murilo pensou.

– Vais dizer que nunca fez isso? – Foca duvidou.

– Está tudo bem, tudo bem. Não me machuquei... – Murilo tocou o rosto para se certificar de que estava inteiro.

– O que você disse? – Davi Pai se aproximou.

Murilo apoiou a mão sobre o gelo e se levantou aos poucos. Suas bochechas queimavam, não sabia se de febre ou vergonha.

– Eu disse que... que não me machuquei, senhor – ofereceu-lhe um tênue sorriso enquanto limpava a roupa. Avistou no chão a espiga de milho que lhe causara a queda. Farejou o ar: o cheiro de merda grudara em seu casaco. O Mestre soltou um brado, pedindo silêncio.

– Não! – Ergueu a voz. – O que você disse antes disso?

– Eu disse que... é... Eu não sei o que o senhor quer dizer...

– Dissestes que está tudo bem – Davi Pai passou a língua pelos lábios finos, cerrados .

– S... Sim, senhor... Eu quis dizer que não... não me machuquei, senhor... Acho que só bati a nuca...

– Mas não está tudo bem – o velho grunhiu de forma inquieta, quase sem mover os lábios. Inclinou a cabeça em direção à tanoaria. – Está vendo os ladrilhos estraçalhados no chão? Está vendo, Baleia?

– Sim senhor.

– Então me diga: está tudo bem?

Murilo engoliu em seco.

– Não, senhor.

– Sabes quanto custa aquele material?

– Sei... sei que custa muito... muito mais do que meu salário pode pagar, senhor. Mas foi... um acidente, eu juro... eu não queria...

– O problema é que tu, Murilo, és um acidente! – o rosto de Davi Pai estava vermelho sob as barbas brancas. – Por Deus do céu, se um homem não tem capacidade de alçar um balde! O que sabes fazer bem, me diga? Além de comer, cagar e mijar, que isso qualquer animal faz. – Meneou a cabeça e suspirou. – Deixem-me a sós com ele.

Boca de Peixe deu um chute no sabugo antes de se retirar. Sozinho com o mestre, Murilo deu por si sem palavras. Estava em estado de choque, não sabia como começar.

– Olhe para mim – ordenou Davi Pai. Seus olhos enevoados já não demonstravam raiva, apenas um enfado maior que o mundo. – De homem para homem, não sei o que fazer contigo. Se não queres mais trabalhar na Oficina, a porta da rua está aberta –apontou o horizonte vazio. De súbito, Murilo compreendeu. O velho estava realmente cansado dele e essa verdade o desesperou. O desemprego era a pior das humilhações. O que diria à esposa, a Alberto? O que pensaria Crispim?

– Senhor, não... Eu preciso desse emprego! Muito! – Ajoelhou-se, agarrando as calças do mestre num impulso.

– Pelo amor de Deus, homem, tenha brios! – O velho o empurrou, horrorizado, depois suspirou de novo: – Vou dar-lhe uma última chance em respeito à senhora Consolação, um anjo de pessoa! Mas não me decepcione de novo. Não decepcione a sua esposa.

– Eu sei, meu senhor... eu vou fazer o melhor...

– Estás dispensado por hoje – Virou-se. – E não se esqueça de pagar o dízimo da Confraria!

– Senhor, desculpe-me lembrá-lo, mas já que tocou no assunto... – balbuciou Murilo, não poderia dizer se acanhado ou amedrontado. – Hoje é sexta feira... O meu salário...

O mestre bufou.

– É inacreditável! O que irias receber hoje não paga o material que destruístes! Ainda ficarás em dívida, sabia?

Murilo juntou as mãos sobre a boca:

– Senhor, por favor. Preciso comprar... trigo! – Trigo era mais essencial que açúcar, pensou. – Preciso dar de comer à minha família, à Consolação. E lenha... – Davi Pai meneou a cabeça de modo aborrecido, porém abriu a bolsinha de couro e atirou algumas moedas ao chão. – Obrigado, senhor! – Murilo se debruçou sobre os joelhos, catando o dinheiro. Contou oito cetils de cobre. Oito réis? Cerrou os dentes. O que poderia fazer com oito réis?

Enquanto fugia dali tão rápido quanto podia, fez uma nota mental. O açúcar custava cinco reis, estava fora de cogitação. Havia a lenha... Talvez pudesse encontrar velhos caixotes pelos becos, mas decerto estariam molhados. Mais uma semana sem tabaco seria insuportável – pensou. Então um tênue brilho surgiu em seus olhos: vinho! Uma caneca de vinho era tudo o que precisava. Aliviaria as dores do corpo e da alma.

Mas não podia ou não devia ir à Taverna do Joaquim. Não podia porque devia, tinha dívidas de jogo. Se bem que a taverna estaria vazia. Não era tão cedo, quando os homens enchiam o espaço para tomar o vinho da manhã antes do trabalho, nem tão tarde, quando bebiam, comiam e confraternizavam após a labuta diária. Avistou José Almocreve em frente à fonte, congelando ao lado de sua besta de carga. Era um homenzinho minúsculo, enrugado, encolhido sob o peso dos oitenta anos de trabalho pesado. Um sinal do destino. Murilo resolveu parar. Deixou pagos três cobres de lenha e rumou para a zona norte do porto.



12 views
Sobre mim

Amanda Martins é aprendiz de escritora, PhD em história e pós doutora em nerdice. Fez da Bélgica seu segundo lar. Entusiasta da amizade, acredita no poder transformador da jornada.

 

Junte-se à nossa lista de discussão!
  • White Facebook Icon