Search
  • Amanda Martins

O mentor na jornada do herói

Updated: Jul 22

Mentor: arquétipo, funções dramáticas, tipos de personagens.


Gandalf, o mentor de Frodo em "O senhor dos anéis". Foto: divulgação.

Ao longo da vida todos nos deparamos com momentos difíceis. Nessas encruzilhadas tudo que queremos é uma palavra de apoio, um conselho, um incentivo.


O mentor cumpre esse papel. Ele é alguém mais sábio e mais experiente, um conselheiro e um guia.


Se na vida real eles cumprem papel tão importante é natural que estejam presentes também na ficção.


Muitas vezes o mentor foi um herói que sobreviveu aos obstáculos da vida e agora está passando ao mais jovem a dádiva de seu conhecimento.



"O arquétipo do Mentor se relaciona intimamente à imagem de um dos pais. Muitos heróis buscam mentores porque seus próprios pais não desempenham papéis que possam ser modelos convenientes". (Christopher Voegler).

Pense em Gandalf, Mestre Yoda ou o Morpheu de Matrix. Todos eles têm uma função no enredo: inspirar e auxiliar o protagonista em algum ponto da jornada a partir do qual ele deverá seguir sozinho.


Continue lendo para descobrir sobre:


1- Funções dramáticas do mentor

a) Ensinar

b) Dar presentes

c) O mentor como inventor

d) O mentor como consciência do herói

e) Motivação

f) Plantar

g) Iniciação sexual


2 - Tipos de Mentor

a) Mentor escuro

b) Mentor caído

c) Mentores múltiplos

d) Mentor cômico

e) Mentor como xamã

f) Floresta ou bruxo

g) Tolo ou criança

h) Mentor interno



1- Funções dramáticas do mentor


a) Ensinar


Ensinar ou treinar é uma função-chave do mentor. Em Kill Bill, Pai Mei treina a heroína, ensinando-a todos os segredos das artes marciais.


Pai Mei e Beatrix Kiddo em Kill Bill. Foto: divulgação.

O cinema e a literatura estão repletos de sargentos, instrutores, professores, guias, pais, avós, velhos treinadores de boxe. Todos aqueles que ensinam truques a um herói são manifestações desse arquétipo.


Ensinar pode ser uma via de mão dupla. Ao ensinar, sempre aprendemos alguma coisa (exceção feita ao Pai Mei!).


b) Dar presentes


Pode ser uma arma mágica, a chave do cofre ou o mapa do tesouro, algum alimento ou remédio mágico, um conselho que salva a vida. O presente tanto pode ser uma senha de computador quanto a espada hattori hanzo de Beatrix Kiddo ou a capa da invisibilidade que Frodo ganhou dos elfos de Valfenda.


Em quase todos os casos os presentes são recebidos depois que os heróis passam por um teste. Eles devem ser conquistados, merecidos por meio de um aprendizado, sacrifício ou compromisso.


"Os heróis de contos de fadas acabam ganhando a ajuda de animais e criaturas mágicas porque foram bondosos com eles no início da história, dividindo a comida ou protegendo-os de maus tratos". (Christopher Voegler).

c) Mentor como inventor


Por vezes o mentor funciona como um cientista ou inventor cujos presentes são suas descobertas, planos ou invenções. No filme Pantera Negra a personagem Shuri, princesa de Wakanda, projeta novas tecnologias para o país - inclusive as armas e armaduras do irmão.


Shuri (Letitia Wright), a mentora de "Pantera Negra". Foto: divulgação.

Shuri, no entanto, não atua o tempo todo como "mentora". É interessante pensar nestes arquétipos como uma função, uma máscara que o personagem usa em dado momento.


Mesmo o vilão pode usar provisoriamente a máscara do mentor para ensinar ou dar algo ao herói. No passado, Bill foi mentor de Beatrix Kiddo. Em uma boa história os personagens transitam entre diferentes arquétipos, mudam, transformam-se, enfim, percorrem um arco.


d) A consciência do herói


Alguns mentores tem o papel de manter viva no herói ou na heroína a lembrança de um código moral. Entretanto, eles podem se rebelar contra uma consciência insistente.


e) Motivação


Muitas vezes o mentor tem de dar um leve pontapé na bunda do herói para que a aventura, enfim, se desenvolva. Geralmente ele motiva o(a) protagonista e o ajuda a vencer o medo.


f) Plantar


Uma função comum do arquétipo é plantar informação, um adereço ou um indício que, depois, vai se tornar importante.


Essa informação se destina a que o leitor tome conhecimento dela, mas a esqueça, até o momento do clímax em que o truque vai salvar a vida do herói. Essas construções ajudam a amarrar o começo e o fim da história e mostram que tudo que foi aprendido com um mentor se torna útil.


"Os filmes de James Bond têm uma cena obrigatória na qual Q, o mestre de armas descreve o funcionamento de uma nova engenhoca incluída na pasta a um entediado 007". (Christopher Voegler)


g) Iniciação sexual


No campo amoroso a função do mentor pode ser iniciar nos mistérios do amor e do sexo. Os sedutores e os ladrões da inocência ensinam lições da maneira mais dura.


Pode haver um lado de sombra em mentores que levam o herói pela estrada perigosa do amor obsessivo ou do sexo manipulativo e sem amor. Há muitas maneiras de aprender.


2 - Tipos de mentor


Como os heróis, os mentores podem se dispor, ou não, a esse papel. De todo modo sua função é ensinar algo, mesmo que isso ocorra sem querer ou por meio do mau exemplo.


A derrocada de um mentor enfraquecido e tragicamente cheio de defeitos pode mostrar ao herói as armadilhas que deve evitar.


a) Mentor escuro


Podem ser usados para desorientar o leitor. Nos thrillers, algumas vezes é uma isca usada para atrair o herói ao perigo. Pode também aparecer como anti-mentor que guia o protagonista no caminho do crime e da destruição, como faz Tyler Durden em Clube da Luta.


b) Mentor caído


Alguns mentores ainda estão trilhando seu caminho em sua jornada do herói pessoal. Podem estar vivendo uma crise de confiança na vocação. Podem estar enfrentando problemas, estar se aproximando do limiar da morte ou ter se afastado da estrada do bem.

Aragorn, na Hospedaria do Pônei Saltitante, é um exemplo de "mentor caído". Foto: divulgação.

O herói ou a heroína podem precisar do mentor para lhe dar apoio, mas há sérias dúvidas de que ele consega dar essa força.


Em O Senhor dos Anéis Aragorn é apresentado ao público como "Passolargo", uma espécie de andarilho marginalizado que se torna mentor de Frodo meio contra a vontade.


Aos poucos Aragorn se revela herdeiro de Isildur e do trono de Gondor, no entanto não se acha digno. É um personagem que decaiu pela culpa e os leitores ficam torcendo para que ele se levante e esteja à altura de sua tarefa.


Um mentor desse tipo pode ter que atravessar todos os estágios de sua jornada de herói, galgando seu próprio caminho para a redenção.


c) Mentores múltiplos


Um herói pode ser treinado por uma variedade de mentores que lhe ensinam habilidades específicas. Um pode ser o conselheiro, outro, o que dá presentes. Há mentores especialistas em luta, arco-e-flecha, montaria, manuseio de armas, sabedoria, virtude, música.


d) Mentor cômico


Amigo ou colega do herói. Aconselha sobre o amor: vá em frente e esqueça essa tristeza; finja que tem um caso para causar ciúmes; seja mais agressivo, etc. Esses conselhos quase sempre acabam levando o herói a uma situação temporária que parece ser o maior desastre.


e) Mentor como xamã


Ligado à ideia do curandeiro das culturas tribais, guia as pessoas pela vida. Viaja a outros mundos, em sonhos e visões, e de lá traz de volta histórias que vão curar suas tribos.

Moctezuma entra em contato com o outro mundo na série HERNÁN. Foto: Dopamina.

Na série Hernán, da Amazon Prime, o imperador asteca Moctezuma bebe uma poção para entrar em contato com mentores de outro mundo. A função deste "espírito" é ajudar o personagem a procurar uma visão que lhe sirva de guia.


f) Floresta ou bruxo


Na superfície é uma bruxa horrenda e canibal que representa o lado escuro da floresta, seu poder devorador. Mas, assim como a floresta, ela também pode ser aplacada e encher o viajante de presentes.


g) Tolo ou criança


Os mais jovens, em sua inocência, são capazes de dar lições aos mais velhos. O personagem mais tolo de uma história pode ser justamente aquele com quem mais aprendemos.


Lembre-se: são os atos do personagem que determinam qual dos arquétipos está se manifestando naquele momento, não seu aspecto físico.


h) Mentor interno


As vezes o herói ou a heroína são tão calejados que não precisam de mentor. Já internalizaram esse arquétipo, que agora vive dentro deles como código íntimo de comportamento.


Um código de ética pode ser a manifestação não-personificada de um mentor, guiando as ações do protagonista.


Também não é raro que o personagem se refira a um mentor que significou algo anteriormente em sua vida. Mesmo que o mentor não apareça na história, a sabedoria contida em seus conselhos será crucial.


A energia do arquétipo de mentor também pode estar investida num adereço como um livro ou outro objeto, que guia o(a) protagonista em sua busca.



Conclusão


Os mentores podem surgir no começo de uma história ou esperar na coxia até que sejam necessários: a presença de um personagem que saiba tudo sobre cordas, que tenha o mapa de uma região desconhecida ou que possa dar ao herói a informação vital no momento exato.


E, para finalizar, eu adoraria saber sua opinião sobre este artigo. Deixe um comentário logo abaixo sobre o que você mais gostou ou alguma dica extra que deseja compartilhar conosco. Todo feedback é bem vindo!


Ultrapasse os obstáculos, especialmente os mentais, e não se esqueça: divirta-se em sua jornada!

59 views
Sobre mim

Amanda Martins é aprendiz de escritora, PhD em história e pós doutora em nerdice. Fez da Bélgica seu segundo lar. Entusiasta da amizade, acredita no poder transformador da jornada.

 

Junte-se à nossa lista de discussão!
  • White Facebook Icon