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  • Amanda Martins

Jornada do herói

Updated: Jul 28

Conheça os doze passos da jornada e saiba porque ela ainda é relevante.


A queda de Icarus. Pieter Bruegel, o velho, (óleo sobre tela1555).

Esses dias li em um artigo: "Por favor, esqueçam a Jornada do herói!! É cliché. É previsível".


Convenhamos, cliché e previsibilidade assustam qualquer aspirante a escritor. No entanto, fiquei incomodada, sem saber porque discordava tanto daquele ponto de vista. Por que eu continuava achando importante conhecer a Jornada do Herói?


A resposta é óbvia: para desafiá-la. Para escrever com consciência.


Se você quer transgredir padrões narrativos, conhecê-los é um bom começo.”

Em 1949 Joseph Campbell instigou a comunidade acadêmica ao afirmar que toda literatura ocidental seguia um único padrão narrativo. As doze etapas deste padrão foram chamadas de Jornada do Herói e expostas no livro O herói de Mil Faces.


Isso significa dizer que, inconscientemente, os escritores ocidentais viviam de copiar uns aos outros, servindo-se de arquétipos para reproduzir dilemas e narrativas.


Cópia... reprodução... A princípio ninguém gostou de ouvir essa história, mas todos ficaram impressionados com o manancial de técnicas e reflexões que o livro de Campbell disponibilizava.


Não tenha dúvida: se você quer conhecer mais sobre estrutura de romance, conhecer os doze passos da Jornada do Herói será de grande ajuda. Mas lembre-se: você não precisa segui-la com rigidez. Use-a apenas para se inspirar.


Acredite: isso pode fazer toda diferença!


Continue lendo e descubra sobre:


1. O mundo comum

2. O chamado à aventura

3. A recusa do chamado

4. O encontro com o Mentor

5. A Travessia do Primeiro Limiar

6. O Mundo Especial: Testes, Aliados e Inimigos

7. Aproximação da Caverna Oculta

8. A Provação

9. A Recompensa

10. O Caminho de volta

11. A Ressurreição

12. O Retorno com o Elixir

1 - O mundo comum


A festa de Bilbo no Condado: o "mundo comum" de Frodo em "O senhor dos anéis". Foto: divulgação.

A Jornada do herói é marcada por controvérsias. O que aconteceria se se tratasse de uma heroína ou de um anti-herói?


Pensemos no herói como protagonista. O que importa é que a maioria das histórias se inicia apresentando o personagem principal em seu Mundo Comum, inserindo-o num contexto para, então, deslocá-lo para um Mundo Especial, novo e desafiador.


Tolkien começa O Senhor dos Anéis descrevendo os hobbits e seu modo de vida no Condado.


“É comum que um escritor construa estes dois mundos de forma bem distinta para que o protagonista e o leitor sintam uma mudança dramática ao cruzarem o limiar”. (Christopher Voegler)

Mas, para criar este contraste nítido, primeiro é preciso expor o ambiente habitual.


Repare que a calmaria do Condado contribui para notarmos que Frodo não tem a experiência que sua missão exigirá.


Esta etapa também serve para expor elementos da personalidade do herói. Ele pode ser apenas uma pessoa inquieta ou talvez se sinta desligado de sua cultura. Pode ser que esteja tentando se ajustar com ajuda de “muletas”, como dependências químicas ou emocionais, ou que seja na verdade um anti-herói.


2 - O chamado à aventura


Nesta etapa o (a) protagonista é confrontado com um desafio. Uma vez que isso ocorre, ele não pode mais permanecer no conforto do Mundo Comum. O Chamado à Aventura estabelece o objetivo da trama e do herói.


Quando Galdalf retorna ao Condado está claro que a meta da história é impedir que Sauron recupere o anel do poder. Porém, uma história pode ter mais de um chamado à aventura.


Frodo atende ao primeiro chamado de Galdalf e transporta o anel até estalagem do Pônei Saltitante. Lá, descobre que deve ir a Valfenda, onde acaba assumindo uma missão muito maior: destruir o um anel nas chamas de Mordor.


O que está em jogo define o próprio enredo: Frodo será capaz de destruir o anel?


Conquistar o tesouro, um amor, vingar-se de uma ofensa, fazer justiça: o Chamado à Aventura pode ter várias facetas.


3 - A recusa do chamado


Com frequência, antes de partir em sua aventura o herói hesita, seja recusando o chamado ou exprimindo relutância.


Nas comédias românticas, os protagonistas podem relutar em se deixar envolver, talvez devido à dor causada por uma relação anterior. Numa história de mistério o detetive pode não aceitar o caso no primeiro momento e só depois mudar de idéia.


É preciso que surja outra influência para que ele vença a encruzilhada do medo: o incentivo de um mentor, uma mudança na situação, uma nova ofensa recebida.


O vinho envenenado: uma nova ofensa a Daenerys Targarien. Foto: divulgação.

Daenerys Targaryen, por exemplo, nunca aspirou voltar a Westeros ou conquistar o Trono de Ferro. Sua memória afetiva de “lar” era a casa de porta vermelha, em Bravos, à qual sonhava retornar.


"Tampouco se lembrava de Pedra do Dragão. [...]. Nessa época viviam em Bravos, na grande casa de porta vermelha. Dany tinha seu próprio quarto, com um limoeiro junto à janela. Depois da morte de Sor Willem [...], foram postos fora. Dany chorara quando a porta vermelha se fechara às suas costas para sempre". (GRRM, Crônicas de Gelo e Fogo).

Após se casar, Dany decide se integrar à sociedade Dothraki, até que um enviado de Westeros tenta envenená-la. Diante da nova ofensa, Dany não hesita mais. Destronar o “usurpador” passa a ser uma questão pessoal, única garantia de segurança. Ela fica motivada.


Você pode estar perguntando: mas Daenerys é a heroína de Game of Thones? Bem, aí é que está: de perto, todo personagem é o herói de sua própria história.


4 - Encontro com o Mentor


Luke Skywalker e Mestre Yoda: "Eu te ensinar irei". Foto: divulgação.

Na mitologia a relação entre herói e mentor é um dos temas mais ricos em valor simbólico.

A função deste personagem é preparar o herói para enfrentar o desconhecido.


Ele pode lhe dar conselhos, orientação ou um presente mágico, como faz Obi Wan, ofertando a Luke Skywalker o sabre de luz que fora de seu pai.


O arquétipo do mentor pode aparecer como um velho e sábio mago, como o mestre Yoda de Guerra nas Estrelas; pode ser um instrutor exigente ou um treinador de boxe rabugento, como em Rocky: um lutador.


vários tipos de mentor, inclusive aquele que, como Sor Jorah de As crônicas de gelo e fogo, revela-se um espião traidor, enviando informações sobre Daenerys a seus inimigos.


O mentor só pode ir até um certo ponto com o herói e, algumas vezes, tem que lhe dar um empurrão firme para que a aventura possa prosseguir.


5 - Travessia do Primeiro Limiar



Finalmente, o herói se compromete com a aventura e mergulha no Mundo Especial ao efetuar a Travessia do Primeiro Limiar, dispondo-se a enfrentar as conseqüências da decisão tomada.


Este é o momento em que a história decola e a aventura de fato se inicia: a nave alça vôo, o cavalo ganha a estrada, o navio faz-se ao mar, o romance começa.


6 - Mundo Especial: Testes, Aliados e Inimigos


Nesta etapa o herói encontra novos Testes, faz Aliados e Inimigos e começa a aprender as regras do Mundo Especial.


Muitos filmes de faroeste levam o protagonista a um saloon onde sua coragem e determinação são testadas, amigos e vilões são apresentados. Na Estalagem do Pônei Saltitante Frodo fica sabendo que Aragorn é um andarilho e tem a chance de ver como ele lida com uma situação difícil.


Cenas como essas permitem que se faça o desenvolvimento de personagens enquanto observamos como eles reagem à tensão.


Porém, em cada portão de entrada ao Mundo Especial há guardiões poderosos protegendo este limiar, impedindo a entrada de quem não for digno. Pense no Agent Smith de Matrix ou no Balrog de O senhor dos anéis.


Gandalg enfrenta Balrog nas minas subterrâneas de Moria. Foto: divulgação.

De forma geral, os guardiões de limiar exibem ao herói uma cara ameaçadora, mas se forem devidamente compreendidos podem ser superados e até se converter em aliados.


Quando John Snow é aprisionado além da muralha acaba se tornando simpático à causa dos Povos Livres, que antes via como inimigos. A relação entre Frodo e Golum é outro exemplo.


7 - Aproximação da Caverna Oculta


Frodo e Sam se aproximam de Moldor em "O senhor dos anéis". Foto: divulgação.

Finalmente, o protagonista chega à fronteira de um lugar perigoso onde está escondido o objeto de sua busca. Trata-se do quartel-general do seu maior inimigo, o ponto mais ameaçador do Mundo Especial: a Caverna Oculta.


Quando o herói entra nesse lugar temível, atravessa o segundo grande limiar. Muitas vezes, ele se detêm diante do portão para se preparar, planejar e enganar os guardas do vilão. A fase da Aproximação compreende todas as etapas para entrar na Caverna Oculta e enfrentar a morte ou o perigo supremo.



8 - Provação


Aqui se joga a sorte do protagonista num confronto direto com seu maior medo. Ele enfrenta a possibilidade da morte e é levado ao extremo numa batalha contra a força hostil.


A Provação é um momento dramático para o leitor: ficamos em suspense e tensão, sem saber se o herói vive ou morre.


A morte pode ser simbólica, como o fim temporário de uma relação. De toda forma, é uma provação em que o herói tem de morrer ou parecer que morre para renascer em seguida. O resultado desse reviver é uma sensação de entusiasmo e euforia.


E quando o herói morre de verdade, como Ned Stark nas As crônicas de gelo e fogo? Este é um bom exemplo de como subverter a Jornada do Herói pode causar um efeito surpresa.


9 - Recompensa


Após sobreviver à morte, derrotar o dragão ou liquidar o vilão, o protagonista e o leitor têm motivos para celebrar. O herói ou a heroína podem, então, apossar-se do tesouro que vieram buscar, sua Recompensa.


Ela pode ser uma arma especial, um símbolo, como o Santo Graal, ou um elixir que irá curar a terra ferida. A recompensa também pode ser solucionar um conflito com um de seus familiares como em Kill Bill, onde Beatrix Kiddo recupera a filha perdida.


Kill Bill. Foto: divulgação.

Por vezes, a recompensa simboliza o conhecimento que conduz à vitória contra as forças hostis. Em Guerra nas estrelas, Luke salva a princesa Léia e captura os planos da Estrela da Morte, essenciais para derrotar Darth Vader.


Às vezes, trata-se da valorização entre os pares: conquistou o título de "herói" ou "heroína" por ter corrido riscos extremos em favor de sua comunidade.


10 - Caminho de volta


Mas Frodo ainda não saiu de Mordor. Neo e Trinity ainda estão na Matrix. Se eles ainda não se reconciliaram com os pais, os deuses ou as forças hostis, estes podem vir furiosos em seu encalço.


Algumas das melhores cenas de perseguição surgem nesse ponto, quando o(a) protagonista é perseguido no Caminho de Volta pelas forças vingadoras que perturbou ao apanhar a espada, o elixir ou o tesouro.


Essa fase marca a decisão de voltar ao Mundo Comum.


11 - A ressurreição


O protagonista que esteve no reino dos mortos deve renascer e se depurar em uma última Provação de morte e ressurreição antes de voltar ao Mundo Comum dos vivos.


A morte e a escuridão fazem um último esforço desesperado antes de serem finalmente derrotadas.


O herói se transforma graças a esses momentos de morte e renascimento, e assim pode voltar à vida comum como um novo ser, com um novo entendimento. Uma das principais características do arquétipo do herói é se transformar durante a jornada.


12 - O retorno com o elixir


O protagonista retorna ao Mundo Comum, mas a jornada não tem sentido se ele não trouxer de volta um Elixir do Mundo Especial. O Elixir pode ser um grande tesouro ou apenas um conhecimento que será útil à comunidade.


Algumas vezes o Elixir é o amor, a liberdade, a sabedoria ou a consciência de que o Mundo Especial existe, mas se pode sobreviver a ele. Em outras, é apenas uma volta para casa, com uma boa história para contar.


Conclusão


A Jornada do Herói não é uma receita de bolo. Ela cresce e amadurece à medida que se fazem novas experiências com sua estrutura. Subverter as etapas e os arquétipos só faz com que fiquem mais interessantes, permitindo o desenrolar de teias de enredo muito mais complexas.


Para finalizar, deixo aqui um desafio: analise a estrutura de seu livro ou filme preferido, observe como ele dialoga com a Jornada do Herói e pense em formas possíveis de transgredi-la. Depois, deixe um comentário abaixo e compartilhe com a gente!


Ultrapasse os obstáculos, especialmente os mentais, e não se esqueça: divirta-se em sua jornada!



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Sobre mim

Amanda Martins é aprendiz de escritora, PhD em história e pós doutora em nerdice. Fez da Bélgica seu segundo lar. Entusiasta da amizade, acredita no poder transformador da jornada.

 

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