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  • Amanda Martins

Criar personagens: herói e anti-herói

Updated: Jul 15



Você tem mil estórias para contar e personagens irresistíveis em mente. Começa a escrever e a história não anda. Aquele personagem incrível se torna cada vez mais sem graça e você até pensa em desistir.


Parece familiar?


Nesse artigo vou compartilhar com você 4 dicas que me ajudaram a encontrar meu protagonista e descobrir seu potencial. Acredite: isso pode fazer toda diferença.


Preparadxs? Então continuem lendo este artigo e descubram:


1. Como usar arquétipos para criar personagens

2. O herói e a heroína: funções psicológicas e dramáticas

3. Os anti-heróis

4. Como humanizar anti-heróis


#1: Como usar arquétipos para criar personagens

(Inserir imagem )


Ao pensar em seu herói ou heroína como um arquétipo você deve ser capaz de dizer três coisas sobre ele:


1. O que define um herói/ heroína?

2. Quais suas características?

3. Quais suas funções no enredo?


Na Jornada do herói, Joseph Campbell catalogou sete arquétipos de personagens comuns nos romances ocidentais: 1 - O herói (ou a heroína). 2 - O mentor. 3 - O aliado; 4 - guardião do limiar. 5 - O arauto. 6 - O camaleão. 7 - A sombra. 8 - O pícaro.


Arquétipos não são papéis fixos. Christopher Vogler nos diz que prefere pensar neles como funções flexíveis ou máscaras usadas temporariamente pelos personagens à medida que são necessárias para o avanço da história.


Idealmente, um personagem bem redondo deveria manifestar um toque de cada arquétipo.

# 2: O arquétipo do herói: funções psicológicas e dramáticas



As principais funções psicológicas do herói são proteger e servir. Ele é alguém disposto a sacrificar seus desejos pessoais em benefício da comunidade.


É comum que as pessoas pensem no herói em termos de força ou coragem, mas essas qualidades são secundárias em relação à capacidade de sacrifício.


Em Jogos Vorazes a joven Katniss Everdeen se oferece como voluntária na competição apenas para salvar sua irmã caçula.


Outra função deste arquétipo é encontrar seu verdadeiro eu. A jornada de muitos heróis trata de sua separação em relação à família ou à comunidade em busca de uma identidade própria. Assim como você, neste caminho eles encontram amigos, sedutores, adversários, bodes expiatórios, trapaceiros, deuses e demônios, seja no mundo exterior ou no interior de suas mentes.


Funções dramáticas do herói


1. Conquistar a empatia do leitor



O herói, a heroína ou o anti-herói são personagens principais do enredo. Sua primeira função dramática é conquistar a empatia do público.


Já nas primeiras cenas, cada leitor é convidado a se identificar com este protagonista e ver o mundo através do ponto de vista dele. O filme Dançando no escuro, por exemplo, inicia-se com a descoberta de que a protagonista é uma mulher muito pobre que está perdendo a visão.


É importante que os heróis tenham algumas qualidades admiráveis para que queiramos ser como eles. Já os anti-heróis não dão a mínima para isso.


Sentir empatia por um personagem não significa que você concorde com ele em tudo, e sim que é capaz de entender seu ponto de vista e se imaginar agindo de modo parecido se estivesse nas mesmas circunstâncias.


Para criar essa cumplicidade, o herói deve ser impelido por impulsos que todos nós experimentamos e que, portanto, podemos compreender: a luta pela sobrevivência, a busca da liberdade, o desejo de ser amado e reconhecido, de ter sucesso, de consertar o que está errado, a raiva, o desejo de vingança, a competição.


Quanto mais conflitantes estes sentimentos forem, melhor. Um personagem dilacerado por forças opostas que o puxam em sentidos contrários já nasce interessante para os leitores.

2. O herói tem defeitos e motivações


Um personagem muito perfeito parece tedioso, por mais heróicas que sejam suas ações. Defeitos humanizam um personagem. Fraquezas, imperfeições, vícios e manias imediatamente tornam um herói mais real e intrigante.


Parece que quanto mais os personagens forem neuróticos, mais as platéias gostam e se identificam com eles. (Christopher Volgler)

Os defeitos também dão a um herói um arco a percorrer. Os leitores adoram vê-lo enfrentar seus suas neuroses internas e superá-las. Às vezes um protagonista se mostra bem adaptado a seu meio, mas esse falso equilíbrio esconde uma ferida profunda.


Rejeição, trauma, frustração: as feridas de um herói, de uma heroína, são as zonas em que são vulneráveis.


Às vezes falta à sua personalidade alguma virtude: a generosidade, a capacidade de perdoar ou de manifestar amor. Esses elementos ausentes fazem com que o leitor se solidarize e deseje que ele se complete no final.


O herói tem motivações também, e elas devem ser fortes o suficiente para movê-lo a enfrentar seu maior inimigo. Muitas estórias tradicionais começam com a subtração da unidade familiar: a morte de um dos pais ou o rapto de um parente.



Game of Thrones é um bom exemplo. O assassinato de Ned Stark é o que desencadeia a energia nervosa da trama, que não irá parar enquanto o equilíbrio não for restaurado pela criação de uma nova família ou reunião da velha.


Para refletir sobre a motivação de seu herói ou heroína, pergunte-se o que eles se arriscam a ganhar ou perder na aventura. Quais serão as conseqüências para eles, para a sociedade ou para o mundo, caso fracassem?

3. Aprender ou crescer


Imagine um personagem que não muda em nada durante a estória. Entediante, não? Ninguém passa por experiências profundas e continua exatamente como antes.


Se encontrar sua própria identidade é uma função psicológica do herói, durante a jornada ele deve aprender algo: como conviver com os outros, acreditar em si mesmo, enxergar além das aparências.


Muitas histórias se tratam de mudanças e auto-conhecimento. O ponto central não raro é a aprendizagem que ocorre entre o herói e um mentor, um amante ou mesmo um vilão.


Ao avaliar um enredo, às vezes é difícil saber qual é o personagem principal. A melhor resposta é: aquele que aprende ou cresce mais no decorrer da história. (Christopher Vogler)

4. O sacrifício: lidando com a morte



Uma história em que o fracasso do herói apenas o deixará um pouco embaraçado não funciona bem, pois pouca coisa está em risco. No âmago de muitas delas existe um confronto com a morte, seja real ou metafórico: um jogo de alto risco, um caso de amor ou uma aventura em que se pode ganhar (viver) ou perder (morrer).


No fundo, os heróis servem para nos ensinar como lidar com a morte. Eles podem morrer, ainda que de forma simbólica, e renascer, provando que ela pode ser transcendida.


Algumas vezes o herói ou a heroína podem oferecer sua vida por uma causa, um grupo, ou renunciar a um amor, um familiar ou um amigo. Você se lembra de como foi doloroso para Daenerys Targaryen abdicar da gravidez para salvar a vida de Khal Drogo e ainda assim perdê-lo, antes de transcender a morte e renascer das chamas com seus dragões?


Proteger, servir, sacrifício, renúncia: espero que a descrição do arquétipo do herói inspire você a refletir sobre as os atributos de seu personagem e suas funções na trama.


Mas, se seu herói não quer lutar por uma boa causa, tem mais defeitos que qualidades e às vezes se parece mais um vilão, não se preocupe. Talvez você esteja em busca de um anti-herói.


#3: Os anti-heróis



O anti-herói é um protagonista à quem faltam as virtudes clássicas do herói. Ele talvez não esteja tão interessado assim no bem da comunidade e seu caráter se define mais pelos defeitos que pelas qualidades.


Pense em Sheldon Cooper, protagonista da série The big bang theory. Ele é arrogante e egocêntrico e, embora não possamos admirá-lo, é um rapaz inofensivo. Agora, pense em Frank Underwood, da série House of Cards. Este é um cara que você não vai querer irritar.


A função dramática do anti-herói é a identificação. Do ponto de vista da sociedade, o anti-herói pode ser um marginal ou um vilão, mas o leitor se solidariza e se identifica com ele porque todos nós, uma vez na vida, nos sentimos marginais.

Amamos esses personagens porque são rebeldes e torcem o nariz à sociedade, como às vezes gostaríamos de fazer.

Os anti-heróis podem até acabar vitoriosos e contar com o apoio total do leitor, mas, aos olhos da sociedade, são foras-da-lei, como Robin Hood ou o pirata Jack Sparrow.


Eles podem também ser pessoas honradas que rejeitaram a sociedade corrupta e agora operam à sombra da lei, como detetives particulares, contrabandistas e até mesmo terroristas, como em V de Vingança.

tipos distintos de anti-heróis. Alguns deles se comportam de modo semelhante ao herói convencional, mas expressam um toque muito forte de cinismo ou vaidade. Já outros, estão a um passo de ser confundidos com vilões.


Tyler, de Clube da Luta, é um exemplo: confiante e astuto, nunca propõe a conciliação, mas a anarquia e a destruição. No fim, torna-se um ícone de combate ao sistema.

1 - Anti-herói solitário

Com este tipo de herói a história em geral se inicia mostrando-o afastado da sociedade, cortado das alegrias e do conforto da família, como os mocinhos do faroeste.


Seu ambiente natural é a natureza selvagem, seu estado natural é a solidão. Sua jornada é de retorno ao grupo (primeiro ato), aventura dentro do grupo (segundo ato), e retorno ao isolamento na natureza (terceiro ato).

Pode ser usado com muita eficiência em romances noir e filmes de ação, em que um detetive recluso é tentado a viver uma nova aventura.

Outro personagem comum é o eremita isolado que é chamado de volta à sociedade para resolver um problema, ou quando uma pessoa que escolheu uma solidão emocional é desafiada a entrar novamente no mundo das relações.

2 - Anti-herói catalisador

Pode agir heroicamente, mas não muda muito, porque sua função principal é provocar transformações nos outros. Sua personalidade já está perfeitamente formada e determinada no começo da história.

Este personagem não chega a desenvolver uma trajetória, porque não tem muito aonde ir.


4 O Anti-herói e o herói trágico



Alguns tipos de anti-herói são como os heróis trágicos, que não despertam amor e são mesmo deploráveis em certos aspectos. Suas falhas de caráter são tão grandes que nunca conseguem superar os próprios demônios e são destruídos por eles no final.


É comum que estes anti-heróis sejam pessoas superiores, com poderes extraordinários, mas tendem a se considerar como deuses. Ignoram conselhos sensatos ou desafiam os códigos morais, achando que estão acima das leis divinas e humanas. Essa soberba é fatal.


Costumamos observar sua queda com fascínio, pois sentimos que "graças a Deus não me aconteceu isso, porque no fundo eu sou assim". (Christopher Vloegler).

Este é o caso de Frank Underwood, da série House of cards, um político que fará tudo para alçar ao poder. Odiamos este personagem por ser um antagonista do povo, isto é, de todos nós; ao mesmo tempo, ele nos seduz, pois nos mostra o quão facilmente podemos ser manipulados.


A popularidade do anti-herói é atribuída ao fato de que, por terem muitos defeitos, são mais parecidos conosco do que os heróis. Se você deseja criar um personagem assim é importante conhecer algumas técnicas para humanizar seu anti-herói.


#4: Como humanizar anti-heróis



Beatrix Kiddo, a protagonista de Kill Bill, é uma anti-heroína completa: aos olhos da sociedade é uma assassina calculista e fora da lei, mas acabamos nos solidarizando com ela.


Isso acontece porque Quentin Tarantino lhe deu:


1. Uma boa justificativa para se vingar.

2. Um arco de redenção.

3. Antagonistas ainda piores que ela.

1. Dê a seu anti-herói uma boa justificativa ou um motivo nobre


Na primeira vez que vemos Beatrix Kiddo em cena ela está saindo do coma e, em estado de extrema vulnerabilidade, sofre uma tentativa de estupro. Ao acionar o tropo da violência sexual o roteirista desperta de imediato o gatilho da raiva e da empatia, e nós adoramos vê-la matar cruelmente seu algoz.


Aos poucos, a estória nos revela que Beatrix Kiddo fora, no passado, uma fria matadora de aluguel, mas também que ela carrega uma profunda ferida psicológica pelo “assassinato” da filha. Esta ferida cumpre a função de humanizá-la e lhe dá uma boa justificativa para a vingança.


Outro exemplo incrível é a série Breaking Bad. A descoberta de que morrerá em breve dá a Walter White um motivo nobre para se iniciar no tráfico de drogas: ele deseja ganhar dinheiro rápido para deixar sua família em boa situação financeira. Todos nós podemos nos identificar com esta intenção.


2. Dê a seu anti-herói um arco de redenção

A máscara do herói pode aparecer em outros arquétipos, inclusive no anti-herói. Lembre-se: os arquétipos não são tipos fixos de personagens, mas funções. Estas transições impactam muito quando um antagonista ou um anti-herói, inesperadamente, manifesta qualidades heróicas e revela ter bom coração.


Em Kill Bill, Beatrix Kiddo dava sinais de que havia perdido a capacidade de amar: a vingança e a violência eram seus únicos focos. Ainda assim, ela foi capaz de demonstrar compaixão, negando-se a matar Vernita Green na frente de uma criança.


Apesar disso, é apenas no fim da estória que Beatrix Kiddo encontra seu arco redentor: ao descobrir que sua filha estava viva, a personagem tem a oportunidade de renascer e reaprender a amar.

3 – Dê a seu anti-herói um antagonista ainda pior


Este tópico é auto-explicativo. Por mais que Beatrix Kiddo seja uma assassina fria, ainda tem mais escrúpulos que qualquer membro do Esquadrão de Víboras Mortais.


Conclusão


Espero que estas dicas tenham sido tão úteis para você quanto foram para mim. Aqui no site deixo disponível exercícios que irão te ajudar a refletir sobre a personalidade e as motivações de seu herói, heroína ou anti-herói.


E, para finalizar, eu adoraria saber sua opinião sobre este artigo. Deixe um comentário logo abaixo sobre o que você mais gostou ou alguma dica extra que deseja compartilhar conosco. Todo feedback é bem vindo!


Ultrapasse os obstáculos, especialmente os mentais, e não se esqueça: divirta-se em sua jornada!



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Sobre mim

Amanda Martins é aprendiz de escritora, PhD em história e pós doutora em nerdice. Fez da Bélgica seu segundo lar. Entusiasta da amizade, acredita no poder transformador da jornada.

 

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